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Apologia do Encalhe

Demasiado crédito ao Cavaco pela revolução de esquerda, sobretudo quando não se sabe se a esquerda iria governar desse lado.
Antes de tudo isso, desagradam-me coligações pós-eleitorais de qalquer tipo. Parecem-me sempre pouco democráticas. Tudo quanto roguei à Liberdade foi a inexistência de uma maioria parlamentar e ela lá me atendeu. 
Desconhece-se quanto tempo esta ideia resistirá mas ainda é muito difícil, diria impossível, passar medidas de austeridade sem um executivo que as consiga impôr por maioria, alheio a programas eleitorais e à população que lhe está sujeita. 
No mar diz-se que a única forma de salvar um barco do naufrágio, por vezes, é encalhá-lo. 
Parar não é pecado.
O país precisa de estancar a torrente de acordos e pactos e discutir política, uma ideia de futuro que certamente não se decide num banco de urgência onde a principal preocupação é manter a vida e não a qualidade dela. 
A sorte das ideias é que os seus sinais vitais são para lá da biologia e não vão de INEM ao hospital. As ideias vão a parlamento para serem tratadas. Já lá vão 40 anos de democracia e disso pouco se fez. A solução é a tradição de fugir para a frente. Hoje, até Portugal foi à Frente e corremos atrás dele.
É uma boa oportunidade para ter discussões parlamentares que não se resumam a passar a Europa por decreto, nem ao coro dos bufos que tudo denunciam, nem aos ladrões que detêm a polícia. 
Já me fazia traça desse poder mal tecido, dessas tapeçarias vermelhas estendidas aos reis de algibeira, da seda que forra o caixão de um sonho social e democrata. 
Tenho uma fome que roeria esse medo de representar gente da maioria, devoraria esta vil ideia de tempo e comeria todos os humanos que desafiam a quântica por não quererem mudar ou medir-se duas vezes.
Um país sem maioria não é ingovernável, é apenas um empecilho ao corporativismo federalista.