poem

Olaria ou Ela

Que queres tu de uma vida sem amor próprio, que te dá amor por meio, por intermédias mãos largas e palpitações sem género?

Que queres deste edifício vazio, de fantasmagórica fachada, fechada numa ideia perdida de ser para dentro na esperança de se encontrar fora?

Que talvez não exista solução melhor para tornear este mono de barro sem fim apontado ao centro. Talvez se queira apenas viver indefinidamente, sem risco de se acabar num cinzeiro tosco onde as beatas enterram incenso passado.

Há que ser do barro à lava, arrefecer nas paredes que se afastam e formar uma ilha de onde se parta na direcção de outras - que esta deriva é só beata largada ao mar na esperança de dar à costa de uma folha seca ou arder num incêndio azul petróleo.

Travar esse episódio, esse epicédio contínuo, a elegia antecipada por cansaço da flutuação.

Perceber que, no fim, olhou-se apenas o fim, sem meio e sem forma a adornar a vacuidade de uma cabeça desligada na manhã do Iluminismo, por volta do meio-dia.

Pé ante pé, de malas pouco feitas e ideias aviadas, 
é ao mar insistentemente aberto em dois que o mundo exige unidade. 
Tivera eu idealizado francamente e teria adicionado duas partes de felicidade por cada de água. Acabaria com as baías só porque cheiram melhor se enseadas.

Há portos antigos, de mapeados fundos para um velho casco de crustáceos. O capitão, nos quartos em que se sente dono, não mergulha nem limpa.

Um calado da altura de um icebergue, uma embarcação de gelo num mar equatorial. Um saqueador a fundo perdido.

Mesmo sob o mais dourado sol,
o azul tem na imensidão o devir de se tornar negro.
O mesmo escurece nos desertos pálidos
onde o astro-mor ferve visões que serve.

Uma onda de areia que quebra nas mais dentadas rodas da fortuna, noras do espírito líquido e o horizonte é um círculo,
porém, e vulgarmente, uma linha.

Aguaceiro ou fatalismo, a ponta da caneta entorta
por se lhe ter rogado que não caísse de bico
ou por não ouvir.