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Eu ouço o Fórum TSF

Puseram uma mulher a presidente da assembleia portuguesa para que, pela primeira vez na história, o preconceito servisse para descontar nas enormidades que diz.

Ela, desde a sua poltrona encavalitada no parlamento, apela a uma europa unida, federalista, com parceiros desiguais, durante o seu discurso de encerramento das comemorações do Centenário da República.

No fundo, Assunção Esteves formula a brilhante sugestão de "fazer um filho para salvar o casamento". No período histórico em que o projecto federalista europeu é frequentemente acusado de "desviado", "falhado", "desigual" ou "corporativista" (provavelmente entre outros adjectivos da ordem destes), esta senhora pede que demos um abraço fraterno europeu, esqueçamos as comunidades que nos são mais próximas e criemos uma razão artificial para nos mantermos coesos.

Esta linha de pensamento não desenha bom caminho. Sabe-se, por longa experiência humana, que emprenhar para segurar o pão não faz boa casa.

Presumo que a um nível menos elevado de decisão, Assunção Esteves proceda de forma similar. Vai-se vergando ao jogo político com nádegas rejubilantes em rubor laranja, como se vergou à acumulação de capital, numa escala de proto-gatuna, entre salários e pensões.

Não sendo velhinha e brotando ares esticadinhos, só se pode dizer que o trabalho, se ali morou, mudou-se há muito. E ela, tendo toda a sua vida engrenada e estável, pode dar-se ao luxo de partir em velocidade cruzeiro nas divagações e não pensar muito com o que diz.

Fala de política externa como quem fala na entrevista das misses. Os seus amigos, muito provavelmente, são na sua maioria políticos em funções, políticos que abandonaram funções, políticos que ocuparão funções. São todos abelhinhas obreiras que colaboram sobre o mel. Enquanto umas partem a polinizar grandes empresas, outros regressam e tudo depositam e concentram em parlamento. Já se esqueceram, se é que alguma vez souberam, do que é viver no formigueiro ou talvez lá tenham ido em visita de estudo na instrução primária. Talvez se passeiem em colmeias exclusivas a fazer das tripas corporação. A família... esse direito que, de tão fundamental, deve ser considerado com parcimónia. 

Aos mesmo tempo, creio que um pouco antes ou talvez depois, Miguel Relvas apelou ao nacionalismo e ao patriotismo em tempos de crise para tirar Portugal daqui. A Assunção, astuta, lança uma cordinha a Portugal que naufraga. Talvez o país, refém de si mesmo, se renda a um plano político imperioso e imperialista.

Espero que não. Sou nova o suficiente para recusar uma alcoviteira tecnocrata e um chulo legislador e que, a bem do mundo, falhem efectivar esforços serviçais.

Gente que só escreve ditado não se digna à confiança, pelo menos à política. Apresentado o Estado Português, sobrou-me concluir que um deles deve ter lido o discurso errado: como ser nacionalista e europeísta simultaneamente? 

Nem atenção à unidade partidária se faz e pede-se a europeia. Que bar mal frequentado...

Talvez não saibam mesmo o que fazem. Talvez a Esteves e o Relvas andem a dar muito no gazon. A minha cabeça tem vontade de parar. Às vezes parece que ninguém está a ver isto e eu, solitária, faço molduras às cegas.

Seguramente não somos todos iguais. Há quem vá descobrindo alternativas à estrutura social e laboral de um bordel.

Acho que nunca me tinha ocorrido a Assunção e agora, que digiro o facto, se é tão fácil ombrear mais alto que faz ela naquela poltrona?