poem

Classe

a partir de Miguel Relvas

- Já em casa?
- Não, trabalho.
- Vais demorar-te?
- Não, a caminho do metro.
- Vem cá.
- Frio, pah.
- Meeehh
- Isso é ruminante?
- Muuuuuu
- Este também é eh eh
- Bah
- ‘Da-se! Sabes as onomatopeias todas!
- Anaki!
- Bóbó?
- Pronto(s).

Agora viro-me para ti.

Tu que empunhas um pincel afogado na tinta espessa
de tudo quanto querias dizer e só tens um cartão.
Um cartão de visita às praças da cidade, 
de preferência as maiores
a ver se mais te reconhecerão.
Nas costas dele o resto da publicidade
- da que se governa com a tua condição.
olhas o cartão no teu modo pessoal…
… dispões o trilho do vão sentimental.
… fantasmas caligrafias com o espírito da súmula
das mãos e do peito polposo panaceias aos povos.

Há tanto caroço enterrado no flagrante
que, por mais que dês voltas ao prado,    
será para revolver a circularidade
em que anda rebanho enredado,
a tolhida classe ruminante.

Trombose rotunda e contínua tida nos dentes,
nas bocas desalinhadas com o horizonte
estreitas e curtas, de um tardio poente,
barregando a coragem a monte, caminho, 
serpentes,
bestiários, 
homens, 
religiosos
e outras gentes,
todos: 
erva daninha
e dois
estômagos contentes
de casco nas pedras
à espera da Páscoa.

politics

ANTiT.ISIS Petition on Tuition

TO EUROPEAN PARLIAMENT
SUBJECT FREE ARABIC TUITION TO E.U. CITIZENS

Even if an alphabet comes from the other sense...

This petition promotes:

  • integration between refugees and locals;
  • desmediate testimony and experience;
  • express community.


This petition rejects:

  • terrorism;
  • tabloidism;
  • fear.

(Thank you, Bernardo, for the English revision.)

Dear E.U.ROpawn:

If 50.000 of us sign up, there will be
ONE European citizen available for dialogue
with each FIVE refugees that arrived in Europe last year.

It's not too ambitious a goal, considering that in 2015 alone over a million refugees arrived in Europe.

As a nobel peace prize winner, the EU should support solidary knowledge and focus on understanding those running into our borders.

Spend your money on tuition, not in building walls. Send funding to education, not war.
Control the anti-terrorist budget and xenophobic behaviour in Parliament.

Revolution would be advised.
Happy 2016.

mercury in pisces / pieces / peaces

poem

Trânsito Very Light

Recolhe a casa depois dessa passagem.
Tudo quanto não é transitório é muito pouco.
Aos teus olhos, a constância é uma lama
que greta a pele e, estalando, intui o desenho
de um bicho a quem faltam duas ou três garras,
a quem sobra um olfacto bafiento, 
consentimento de velharias no armário,

a quem o apego diz respeito.

Entre tantas vitórias de cão pequeno
- de guarda, à chuva - rosnando ao bem
que vem como um fogacho, um foguete,
um petardo que, por muito que se queira desenhado,
surte apenas explosão e encobrimento,
cor de luz que deveria entrar pelas bocas do mundo
e calar-se nas barrigas famintas
de amor materno e aprovação de pai.

Explodi sob a nuvem densa da festa que transitou em artifício.

poem

Salamalandra

andava uma fava contada
atrás de uma fada montada
caiu desamparada no quente
e quem a comeu foi gente

dá-lhe uma chouriça rija
para rir de boca na botija
ela vem de flores e varinha
toca, desfaz, declara tinha

duende doente complacente
afogado no barrote da sorte
mel despista carro, carrocel
calha bolha rolha de papel

poem

Hexagrama Imperfeito

Sopros rombos ou mil desculpas.
Escrever de pé à alma prostrada.
Uma poça reflecte a alma ensopada:
o lago de onde não se vê a margem;
o velho multiplicado antes de enfrentado;
o altar vazio construído em si próprio, 
apanágio terrestre de n
ão se ser mais que sopa fria.

Ou não travar rebatimento se encontrar charneira.

poem

Olaria ou Ela

Que queres tu de uma vida sem amor próprio, que te dá amor por meio, por intermédias mãos largas e palpitações sem género?

Que queres deste edifício vazio, de fantasmagórica fachada, fechada numa ideia perdida de ser para dentro na esperança de se encontrar fora?

Que talvez não exista solução melhor para tornear este mono de barro sem fim apontado ao centro. Talvez se queira apenas viver indefinidamente, sem risco de se acabar num cinzeiro tosco onde as beatas enterram incenso passado.

Há que ser do barro à lava, arrefecer nas paredes que se afastam e formar uma ilha de onde se parta na direcção de outras - que esta deriva é só beata largada ao mar na esperança de dar à costa de uma folha seca ou arder num incêndio azul petróleo.

Travar esse episódio, esse epicédio contínuo, a elegia antecipada por cansaço da flutuação.

Perceber que, no fim, olhou-se apenas o fim, sem meio e sem forma a adornar a vacuidade de uma cabeça desligada na manhã do Iluminismo, por volta do meio-dia.

Pé ante pé, de malas pouco feitas e ideias aviadas, 
é ao mar insistentemente aberto em dois que o mundo exige unidade. 
Tivera eu idealizado francamente e teria adicionado duas partes de felicidade por cada de água. Acabaria com as baías só porque cheiram melhor se enseadas.

Há portos antigos, de mapeados fundos para um velho casco de crustáceos. O capitão, nos quartos em que se sente dono, não mergulha nem limpa.

Um calado da altura de um icebergue, uma embarcação de gelo num mar equatorial. Um saqueador a fundo perdido.

Mesmo sob o mais dourado sol,
o azul tem na imensidão o devir de se tornar negro.
O mesmo escurece nos desertos pálidos
onde o astro-mor ferve visões que serve.

Uma onda de areia que quebra nas mais dentadas rodas da fortuna, noras do espírito líquido e o horizonte é um círculo,
porém, e vulgarmente, uma linha.

Aguaceiro ou fatalismo, a ponta da caneta entorta
por se lhe ter rogado que não caísse de bico
ou por não ouvir.

 

 

poem

rip #80

30.11.1931

Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.

Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.

I did nothing, well known, nor will I,
But by doing nothing I became this,
which equals doing all or nothing,
who I am is the spectre of what I'll not be.

We live on encounters and abandonments
Without truth, no doubt nor owner.
Life is good but rather wine.
Love is good but rather sleep.

politics

Apologia do Encalhe

Demasiado crédito ao Cavaco pela revolução de esquerda, sobretudo quando não se sabe se a esquerda iria governar desse lado.
Antes de tudo isso, desagradam-me coligações pós-eleitorais de qalquer tipo. Parecem-me sempre pouco democráticas. Tudo quanto roguei à Liberdade foi a inexistência de uma maioria parlamentar e ela lá me atendeu. 
Desconhece-se quanto tempo esta ideia resistirá mas ainda é muito difícil, diria impossível, passar medidas de austeridade sem um executivo que as consiga impôr por maioria, alheio a programas eleitorais e à população que lhe está sujeita. 
No mar diz-se que a única forma de salvar um barco do naufrágio, por vezes, é encalhá-lo. 
Parar não é pecado.
O país precisa de estancar a torrente de acordos e pactos e discutir política, uma ideia de futuro que certamente não se decide num banco de urgência onde a principal preocupação é manter a vida e não a qualidade dela. 
A sorte das ideias é que os seus sinais vitais são para lá da biologia e não vão de INEM ao hospital. As ideias vão a parlamento para serem tratadas. Já lá vão 40 anos de democracia e disso pouco se fez. A solução é a tradição de fugir para a frente. Hoje, até Portugal foi à Frente e corremos atrás dele.
É uma boa oportunidade para ter discussões parlamentares que não se resumam a passar a Europa por decreto, nem ao coro dos bufos que tudo denunciam, nem aos ladrões que detêm a polícia. 
Já me fazia traça desse poder mal tecido, dessas tapeçarias vermelhas estendidas aos reis de algibeira, da seda que forra o caixão de um sonho social e democrata. 
Tenho uma fome que roeria esse medo de representar gente da maioria, devoraria esta vil ideia de tempo e comeria todos os humanos que desafiam a quântica por não quererem mudar ou medir-se duas vezes.
Um país sem maioria não é ingovernável, é apenas um empecilho ao corporativismo federalista.

politics

Tempo de Antena

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redigido para menos de 1 minuto de tempo de antena
legislativas 2015
PCTP-MRPP

Não é política escolher a deriva.

Não é democrático ignorar a diminuição da qualidade de vida.

Os parlamentos português e europeu têm sido espaços de desejo e futuros privados

A política é res pública

Isto não é democracia. 

Berlim não é a minha capital.

Quero bancos à islandesa.

Desiludida, farta de corrupção, de subserviência de cartel
e sacrifício vão, peço que não culpes a política 
e que não vires as costas ao voto. 

Aceitar a dívida é gritar que não se quer ser livre.

Acaba com os teus ombros encolhidos como um escravo.

Por favor, juventude: sê a revolução em que se possa rir.

Diz “não” ao Euro. 

Troca o sacrifício de três gerações de austeridade pelos 4 anos de escudo novo. 

Os portugueses não são fracos nem fortes.

Portugal não é periférico nem pobre. Temos mar como de Lisboa a Moscovo e estamos no meio do Tratado Transatlântico. 

O coração da Europa é Portugal.

A hora marcada da democracia e das novas conversas de café é a 4 de Outubro. 

politics

45º aniversário PCTP-MRPP

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Feliz ano novo a todos os camaradas que dão corpo à Voz do Operário esta noite.

Chego-vos enquanto independente, cabeça de lista pelo Porto e mandatária nacional para a Juventude ao 45º aniversário do PCTP-MRPP. É este o movimento reorganizativo que retira a minha acção política do anonimato partidário e fá-lo porque afirma a alternativa quanto à participação dos cidadãos na política e no país. 

Tal como vós, desprezo a inevitabilidade e a democracia de jugo em que temos suportado o peso das acções que não nos têm em conta e que não revertem em favor da manutenção nem do progresso social. Pressuponho consensual, entre nós, que o objectivo de uma comunidade organizada enquanto nação é alimentar a qualidade de vida dos que a compõem, qualidade essa medida pelos níveis de saúde, educação, cultura, emprego e lazer. Em todos estes indicadores temos perdido a objectividade sob a direcção dos governos ditos democráticos que se têm sucedido. 

Economias, entropias e bizarrias têm deixado empoleirados governantes que não representam e afugentam da vida política o comum cidadão. Tornamo-nos impotentes na medida de forças entre a teia legal e a Justiça.

Quer por não ter o seu poleiro, quer por não gostar que lhe caguem em cima, é a gente dedicada, porém frustrada, como eu, que repudia as opções políticas vigentes. Padeço de austeridade com acessos de desemprego precário. 

Sou cidadã, de entre muitos, no cinza em que não se imprimem relatórios de Troica.  Para tentar o preto e o branco, a realidade tem muitos medidores, indicadores e adivinhos. Todo o comentador e político de profissão que determina a negação da opção governamental como acto destruidor é intelectualmente um imbecil por definir e define-se, enquanto tal, assim que nega a alternativa de dizer “não”. 

O “não” constrói um outro “sim”. 

Nenhuma amizade franca se faz de palmadinhas nas costas, nem nenhuma política se faz de anuimento de cabeça baixa. A política é espaço de desejo e não de constrangimento. Os olhos da democracia fixam o horizonte. A prática dos governantes tem-nos fixados nas virilhas.

Instalou-se uma economia de sacrifício, socialmente inoportuna na era das máquinas. A opressão tem cheiro de palavra velha, como a sombra de abutre que se pavoneia no caminho da libertação do trabalho. 

Enquanto cada um tomar o trabalho como fronteira final da sua existência estaremos impedidos da mudança. É preciso renunciar a moral de escravo, reformular as associações de sindicância e ter o desemprego por principal inimigo.

A sociedade continua com as suas classes embora essa percepção tenha vindo a ser anulada no discurso associado ao liberalismo. Nada mais conveniente para a manutenção deste caminho deplorável da vida em sociedade que dividir os cidadãos, agora solitários e impotentes perante a angústia, demasiado preocupados em prover o frigorífico e as dívidas, retirando-lhe energia e meios de interferir nas decisões que sobre si recaem.

A “legitimidade” dos números tem ultrapassado programas eleitorais, eleitores e factos. Mesmo que a desgraça fosse de uma minoria, a democracia tem, por princípio, pelo menos considerá-la.

As dívidas soberanas e consequentes actividades executivas dos países têm lesado nitidamente a maioria das suas populações. Substituiu-se a maioria democrática pela maioria burocrática de escritórios de finança em que Estado e empresas tão lucrativas quanto o Estado se diluem. 

Que legitimidade têm os mandatos que atraiçoam os seus eleitores? 

Que Europa é esta que ignora os aflitos, sejam eles europeus ou sobras dos negócios europeus?

Que Estado é este que esquece o serviço à sua população?

Quem manda aqui?

O Estado é empregado dos cidadãos. Para ser democrático não basta ir a eleições. Junto-me ao PCTP-MRPP pela sua capacidade de dizer “não” à continuidade das opções políticas de austeridade que nos amofinam o destino. 

É imperativo introduzir a negação e o protesto como formas válidas de construção do destino de Portugal. É preciso destruir a noção falaciosa de que há apenas um trilho, para mais com sinalização alemã.

Ainda que não seja possível antecipar todas as consequências da rejeição do Euro, é dever patriótico, com vista ao internacionalismo, escolher a independência para que possamos controlar a nossa democracia e obedecer à qualidade de vida pondo no cepo da História, inevitavelmente, o Euro antes da cabeça. 

A mudança individual é, por si só e normalmente, uma missão complexa que se adensa quando pensamos colectivamente. Enquanto cidadãos, há que rejeitar o medo que a mudança tem instigado no discurso governamental. Se há medo de mudar, considerem-se maiores receios na espera de uma solidariedade que não mais virá. O capital tem sido a única voz decisiva e a Grécia ou a crise de refugiados são sinais evidentes da incapacidade do projecto europeu vingar sobre uma base humanitária que dizia ser a sua. 

A União Europeia tem sido madrasta severa para quem atravessa as dificuldades que ela própria cria em prol do enriquecimento ilícito de grandes grupos de interesse. Ilícito porque assente na opacidade dos seus motivos e na corrupção dos valores sociais, não correspondendo ao projecto europeu de nações irmãs, que todos subscrevemos e, razão pela qual, se torna tão difícil repudiar a União Europeia ao comum cidadão. 

A União Europeia clama por valores morais que não pratica.O estrangulamento das nossas condições é uma opção política que tem de ser contrariada. É preciso dizer “não” à mentira da dívida e será impossível fazê-lo esperando a benevolência alemã ou a solidariedade dos restantes estados membros. Todos se apoiam no interesse que encherá os cofres de alguns ou tolherá os movimentos democráticos que sacudam o seu peso.

 

Dada a impossibilidade matemática de pagar a dívida, a crescente espoliação dos recursos humanos, naturais e materiais do país, o PCTP-MRPP recolhe o meu voto e a minha adesão por desenhar o horizonte no único lugar possível: entre a recusa do pagamento da dívida e a saída do euro. Só daí se pode resolver o que nos aflige. Toda a calamidade social que nos tem acontecido decorre deste desequilíbrio entre a realidade material de um povo e a alucinação económica do capitalismo. O capitalismo vinga entre nós nutrindo o sentimento patente, em maior ou menor grau, de que cada cidadão tem direito a avançar para o quintal alheio pela força da algibeira. Isto “não” está bem. Queremos quintais e algibeiras para toda a gente.

Tudo quanto foi conquista na direcção do bem-estar social, temo-la visto esvair-se sob a chuva metálica da União Europeia de que fazem parte os cegos vencedores do concurso de timoneiro em legislativas nacionais - CDS, PSD e PS.

A inevitabilidade é o veneno que a maioria toma, não só a parlamentar como a cidadã. 

A desonestidade não é inevitável. É uma escolha.

A força da maioria parlamentar tem sido a do capital por oposição à humanidade. A força da maioria cidadã representada em parlamentotem sido a montra da desistência,da descrença e da indiferença ao voto ou à mudança.

É urgente dizer “não” à dívida. É obrigatório dizer “não” a quem no-la impõe. É preciso dizer que “não” queremos governantes que “não” nos representam. É preciso compreender que a política “não” se faz à distância de um encolher de ombros.

É preciso comprometer a acção com o passado e com o futuro e “não” alienar o presente. Queremos ser gente hoje.

É preciso dizer “não” a uma economia baseada no serviço.

É preciso dizer “não” às soluções de curto prazo como o turismo que, apesar de necessária, não pode ser única e que só nos educam para a dependência e o servilismo.

É preciso dizer que esta dívida é odiosa já que se instalou a guerra sem armas que vai matando a liberdade e o que morre por último: a esperança. 

É preciso rejeitar o novo colonialismoque sangra o vigor e a juventude nacional. Este país “não” é velho. Este país está usado. 

O espectro político precisa das cores frescas do sangue novo que jorre a força do “não” para dizer “sim” ao aumento da nossa produção industrial, energética, exploração marítima e diversificação do sector terciário.

Não queremos o que “eles” querem. Somos de outra condição: da condição do trabalho, do mês maior que o salário, da vida mais pequena que a possível.

É preciso dizer que “não” queremos abandonar a nossa terra e muito menos os nossos. Emigrar é chutar um problema para a frente embora compreenda a fuga ao impedimento de construir a vida já.

É preciso instalar que “não” é possível pagar a dívida sem hipotecar a ambição de construção e desenvolvimento. 

É preciso provar que “não” admitimos a falta de dignidade e que “não” perdoamos a corrupção do nosso sistema democrático.

É preciso dizer que Berlim “não” é a capital portuguesa. 

É preciso dizer que "não” negociamos com criminosos que redigem leis para branquear colarinhos e dinheiro.

É preciso dizer “não” à caridade quando nos rege o princípio da solidariedade. É urgente ser o outro.

O número que a Europa pede aos europeus portugueses é o da maioria parlamentar alinhada cujo poleiro garanta a aprovação e execução de óptimos negócios. A comunidade internacional e os comentadores chamam-lhes “estabilidade”, “governabilidade”, “patriotismo”,“leis” e “reformas”. Chamar-lhes-ia medo, cartelismo, violação e roubo.

Para estancar as decisões danosas da Europa, não pode haver maioria parlamentar em Portugal,
muito menos de direita. Nas próximas eleições legislativas, o único voto útil
é o que fragmente a distribuição do poder parlamentar de tal forma que impeça a União Europeia de impôr leis de degradação da economia e sociedade portuguesas. 

Sem lacaios no governo não se podem aprovar medidas à rebelia do escrutínio real ou, pelo menos, discussão real sobre as soluções à disposição. A solução não passa, de todo, por continuar a dizer “sim” à Europa de Merkel e ao barregar dos restantes. Lutar contra a maioria parlamentar não é uma solução: é um passo em direcção à segurança nacional e à possibilidade de escolha democrática sobre o destino do país.

É preciso negar o mais possível o pesadelo das gerações futuras e assumir responsabilidade pelo nosso tempo em favor da felicidade delas.

Parar é sobretudo importante quando nos dizem ser impossível travar. É preciso sonhar de novo. É preciso lutar todos os dias.

Por não haver outro partido que declaradamente proponha abandonar o jugo do Euro, é preciso convocar o voto no PCTP-MRPP dia 4 de Outubro.

Obrigada e até amanhã.

 

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Carta Aberta à Juventude

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Cara Juventude:

Acabo de te abandonar sem que te perca o rasto. 

Os 31 anos que levo desta vida não me deixam ser tua. Os intervalos da estatística separam-nos os corpos mas nada podem fazer quanto à sede da vida que nos terá por companheiras.

A verdade é que não se pode ser adulto de facto sem poder antecipar os dias e não há coisa que mais os obscureça e me faça sentir imberbe que a cortina que pousou sobre eles.

Eu nem tinha grandes planos. Gostaria de ter uma casa; um trabalho que desse dinheiro para livros, cinema e música; cozinhar pitéus para amigos e brindar-lhes a companhia; poupar para velha; viajar de quando em vez; uns sapatos confortáveis para passear. 

Na saúde penso pouco porque a vou tendo e à educação tive o direito público antes que Bolonha tivesse atacado. 

Até há pouco, nem pensava constituir família que é preciso cuidar dela uma vida toda, sabe-se lá como, e eu tenho tanto para fazer. Cresci a sobrevalorizar a profissão com sucesso. 

Porém, tenho-te visto nascer, Juventude, sobrevivente da ruína social, fruto dos amigos atirados ao amor entre si, e, porque nasces no mesmo dia que o Futuro de Liberdade, não há outra criatura em que deposite mais esperança e que me traga mais frustrações. 

O Futuro tem sido todos os dias.

Em 1983, nasci durante a segunda intervenção do FMI em Portugal. Tinham passado apenas seis anos da primeira e do pedido de adesão à CEE, três magros anos volvidos sobre a Revolução dos Cravos. Em 1985, Mário Soares assinou o tratado de adesão ao que agora conhecemos como União Europeia. Isto significa que este país, e eu, conhecemos bem as amarras recentes ao desenvolvimento económico e que nunca se instalou a mudança que Abril prometia, apesar das melhorias estatísticas relevantes no que se reporta ao serviço público. Haverá força nos mais fracos?

Os meus pais de tudo fizeram para me criar e permitir a licenciatura que julgavam ser sinónimo de emprego qualificado e estável. Não sei se já trabalhas, Juventude, todavia é o que a sociedade de ti espera se queres pertencer-lhe. Cuida do teu Futuro hoje.

A estabilidade económica é tão importante como um degrau que permite o próximo passo. Até a União Europeia tem gritado por ela. Enquanto os meus pais a desejavam porque nela viam a possibilidade de emancipação - pela minha liberdade e pela deles face a constrangimentos materiais, a U.E. aclama a estabilidade de refém mantendo a trela curta aos povos guiados por números incompreensíveis.

A estabilidade para a emancipação vem do trabalho que se faz em conjunto. 

Há um título de romance austríaco do século XIX que ficou famoso pelo uso nazi. Nesse livro, um homem de jogo descobre a virtude pelo trabalho. O senso comum sabe que “o trabalho liberta” das condições materiais e talvez, por esta razão, se torne tão insidiosa a frase de acolhimento em campos de concentração onde judeus morriam, mais que ao trabalho, à insuficiência de condições e objectivos humanistas para o desempenhar. As condições de trabalho andam escassas para quem quer ser feliz.

Hoje não há letras de boas-vindas mas um eco fascista sobrevoa-nos escurecendo o céu da Europa. 

Hoje são os impostos sobre o trabalho, e a desvalorização dele, que hão-de libertar-nos de uma dívida que não criamos nos campos de acumulação do Euro. 

Hoje é o desemprego que nos impede de nos libertarmos da dívida, mesmo contestando a injustiça da cobrança de uma dívida feita por capitalistas e não por proletários.

Hoje, se não puderes pagar a formação, porque faltam trabalho e dinheiro, há um banco que te empresta para que depois, em juros e obrigações, vás trabalhar em qualquer coisa para pagar o teu direito à Educação e sais da escola já endividado.

Hoje o momento alto da tua educação e companheirismo é prostrares-te de quatro, sem nome, e aprender a subserviência e a hierarquia do uniforme.

Hoje, Juventude, é o estágio não-remunerado a tua ambição no fim do curto curso que mal te prepara para que depois compres os mestrados e os doutoramentos para trabalhar, quando deverias estar a estudar para aprender a pensar duas vezes.

Hoje resignas-te a trabalhar de graça para os outros. Estás para o teu patrão como o burro para a cenoura e reverencias quem te monta.

Hoje aceitas que ninguém te dê valor e que o compromisso contigo seja precário, porque o capitalismo destruiu postos de trabalho para impôr salários baixos e qualquer coisa que agarres é melhor que afogar-te na mágoa de ser inútil para consumir.

Hoje o respeito pela tua dignidade chamam-lhe empreendedorismo, sem que nunca te expliquem de onde vem o dinheiro e a competência para investir e que, o mais certo, é arrastares a tua família ou as poupanças para o crédito que contraíste aos mesmos banqueiros que liquidaram o emprego que irias ter.

Hoje vives com os teus pais ou voltas para casa com idade para ser mãe.

Hoje tens por certo que a vida possível é a de um refugiado sem guerra à vista e que, contudo, te faz vítima expatriada. Até te parece bem emigrar já que és tão nova e a experiência é boa. Talvez tenhas ido para a Alemanha aproveitar a caridade de ganhar quatro vezes menos que um alemão.

Hoje esqueces que a U.E. tem origem no comércio do carvão e do aço e sentes-te abençoada por não ser obrigada a mostrar o passaporte na fronteira, embrulhada na ideia revolucionária de que os Estados são irmãos e vivem em paz.

Hoje és a tampa de saneamento no meio da calçada onde políticos e outros corruptos passeiam os cães de fila que guardam os teus pais e juízes.

Hoje, Juventude, crês que a democracia é um engodo, que não te representa e fito-te as costas voltadas à pátria que te pariu. Julgas que participar é indiferente e que Eles são todos iguais.

Hoje abstens-te como humanidade livre ainda que te cerque o azul estrelado.

Hoje parece-te que viverás sempre e os velhos cansados são chatos e não te compreendem. Para o diabo com a saúde, para o inferno com as reformas! Que tudo seja privado e, com o emprego que para aí se gera, reza para conseguir pagar a quimioterapia por mais um dia e ter pão quando te faltarem os dentes.

Hoje encolhes os ombros à privatização de tudo, desde a água para beber à electricidade que carrega o teu telefone esperto e o que era direito passa a dever de pagar. Reclamas que o Estado tudo gere mal preferindo culpar a soberania pelos negócios mal-parados de meia-dúzia de maus gestores que entram pelas portas de fundo dos concelhos de ministros antes do anúncio de medidas de austeridade.

Hoje, nem movimentar-te poderás porque os transportes são para render em SWAP’s e as pernas são de graça para quem as tem ou não vive longe do que precisa.

Hoje, o melhor que consegues é low cost ou marca branca e sentes-te rico com a política do desperdício e desprezo.

Hoje tens o olhar envenenado dos que perdem e querem que o resto se perca como eles. 

Hoje talvez percebas que os teus pais confiaram demais no “Depois do Adeus”, não foram a Grândola porque esteve sempre ali perto e foi ao lado que lhe passaram.

Estes 40 anos, Juventude, deram-te a liberdade de caixote de areia, a democracia de hora marcada e a propriedade a crédito. Afeiçoaste-te à culpa que os teus pais te ensinaram por terem adormecido a más horas em cima dos carris da alta velocidade especulativa.

Hoje, a cor da Revolução está comida pelo sol das alvoradas de leste mas lembra-te que aqui o sol se põe no Atlântico de onde nem o peixe é teu.

Por isso, hoje, vira as costas à União Europeia que a Europa continua cá amanhã.

Hoje pensa no amanhã em que a tua casa será para ti e menos para o aluguer aos turistas que aumenta a renda que deverias conseguir pagar sozinha. Quiçá possas pôr os teus filhos, se os puderes ter portugueses, a dormir na vertical alinhados com o poder.

A Juventude que conheci sonhava com a mudança que supunha trazer, ainda que imperfeita e devagar, a igualdade de circunstância social. Desconheço revolução que tenha avançado sem essa tua força, Juventude.

Amanhã poderias ter tudo o que tens hoje e melhor. Não percebo porque recuas, porque baixas os braços e partes antes que o tempo acabe. Ao menos não te faças provinciana nas capitais do mundo e usa o voto que chega aqui.

A idade tira-me o sono, nunca o sonho. Quero paz, pão, habitação, saúde, educação e tudo o mais que precisemos juntos para sermos livres. Um projecto de emancipação individual apoiado no conjunto, a ressoar movimentos populares que cismam crescer noutras nações contra o capitalismo, como o que pratica a U.E., que vai amordaçando os ventos contrários à sua palavra.

Dou-me por Virgínia Valente, sou activista política independente, sem horários nem honorários. 

Luto por medidas de alteridade contra a austeridade que nada cria. Quero manter e ampliar as conquistas de Estado que fizeram de mim pessoa sem ter quase nada com que pagá-las, nem que para isso tenha de rejeitar a União Europeia. Não admito a ideia de pobreza na era das máquinas nem tolero a espoliação dos recursos do meu país.

Tentaram apagar as classes e continuo proletariado. Tentaram apagar o género e continuo mulher.  Tentaram dilatar a juventude porém o tempo é padastro e tornei-me adulta. 

As classes, o género e juventude extinguir-se-ão muito depois de mim.

Preciso de um partido para participar na democracia, um que defenda abertamente a liberdade, a participação popular e a independência nacional como degraus necessários à construção de uma nação global.

Hoje, ao deixar a minha juventude de cartão de cidadão, apelo pelo surgimento e apoio aos cidadãos-média que, ao dia de hoje, são capazes de representar mais de nós pelo que fazem e projectam que qualquer programa político. Apelo pela chegada dos seres espectrais que são por muitos, os seres de amanhã todos os dias.

Devolve-te o futuro hoje, Juventude. Ainda não estás velha para isso.

article

"Timeless"

Texto de apresentação para a exposição de Philippe Pasqua no Palácio Nacional da Ajuda que nunca existiu.

O Palácio Nacional da Ajuda recebe Philippe Pasqua para uma exposição de arte contemporânea. 

Timeless” é o nome deste encontro de vanguardas do século XIX e XXI. 

Philippe Pasqua é um vulto maior nas cordilheiras da arte de hoje. 

Francês de origem, fez-se artista plástico auto-didacta desde a maioridade. Cerca de trinta anos passados, é uma montanha movediça entre continentes, grande como a escala das obras que produz e expõe.

Integra-se na tradição da pintura e escultura figurativas embora represente emoções evocadas pelo modelo e por ele mesmo, à procura da vida, do acidente e da magia. Se alguma coisa se vê da morte é puro exorcismo. Todo o seu amor pela pintura deve-se à paixão incondicional pela vida. No limite, dir-se-ia que a sua obra é um interminável auto-retrato, do presente contínuo do artista, tomando sentido além da pele e até ao osso.

Encara rostos e corpos com uma violência sensível, avançando e recuando em relação aos gigantes de tela, trepando escadotes até aos topo das figuras, saltando de um humano ao outro, seja ele carne ou esqueleto. As imagens surgem enérgicas em camadas intuitivas, perfilando os retratados enquanto monumentos à vida, uma que se constrói organicamente à medida que a matéria se acumula, nas aproximações e recuos da abstracção à coisa concreta. 

Cegos, portadores de trissomia 21, transexuais, amputados, prostitutas ou pessoas comuns são celebrações de beleza urgente de que Pasqua é anfitrião. Olham-nos de cima com a dignidade dos deuses e da vida eterna.

Todos os modelos são guardados em instantâneos que lhe servem de mapa às investidas armadas de tinta. Todos eles são carne revoltada a cada pincelada furtiva, volumes rasgados no branco a comparecerem invariavelmente no sítio exacto. Se há escorrimentos do acaso são prova da demanda pelo incontrolável, de uma pintura sem arrependimento ou medo. 

A convulsão dos corpos, entre as cores de vida e de morte, fá-lo vizinho histórico de Francis Bacon,  Lucien Freud ou Egon Schiele, embora seja de Jenny Saville que se diz mais chegado.

Carros cobertos de pele e tatuados são mais uma forma de continuidade do trabalho em torno do corpo.

A exaltação do presente desta vita brevis demonstra-se igualmente nas borboletas em bando, ora livres sobre a tela, ora pousadas sobre crânios — sejam verdadeiros, coleccionados e alterados por Pasqua, sejam nos que esculpe em dimensões colossais. 

Os animais — de estimação, extintos ou mitológicos — juntam-se à constelação de estrelas cadentes de Philippe. Há também incursões escultóricas na botânica, com desmesura e transformismo material, frequentemente metálicas para que nos reflictam e ganhem as características do ambiente em que são implantadas. 

Sol, natureza e sossego foi o que procurou ao mudar-se para a Malveira da Serra. Tomou Paris, Nova Iorque e agora Sintra. Rodeado de árvores e sob camuflagem, construiu um enorme atelier, espaço integrante da sua obra que alberga a conversação permanente entre o artista, a criação e o mundo exterior.

O Palácio Nacional da Ajuda convoca às suas salas o universo de Philippe Pasqua. 

A reunião advém do paralelismo entre o vanguardismo de D. Maria Pia, da sua sede de novidade e inclinação contemporânea, e essa mesma alegria de viver que encontramos em Philippe. 

A rainha, para lá da mais bem vestida da Europa, era uma exímia negociante internacional e mãe extremosa. No sangue corria-lhe a magia da vida identificada no bom gosto e nas acções, testemunhados pelas suas escolhas decorativas, pelas notáveis festas que organizava, pela generosidade que votava aos mais desfavorecidos.

Os salões da Ajuda, saídos dos catálogos do que melhor se produzia nas tendências do século XIX, são o ambiente que acolhe o interessante diálogo entre o ambiente nostálgico de uma contemporaneidade ida e a contemporaneidade vibrante de um dos actuais príncipes da arte internacional. Conversam na linguagem da arte, falam-nos da intemporalidade dos que se querem nossos e para sempre. 

Tanto D. Maria Pia quanto Philippe Pasqua constarão certamente nos relatos escritos da posteridade. O poder das artes sobre a eternidade não poderá mais ser-lhes retirado.

Um passeio por “Timeless” revelará pontes de um século ao outro. Entre outras peças, encontraremos a mão de chumbo de Pasqua pregada a uma base de madeira na Capela. Na Sala de Bilhar, uma criança olha entre dedos os fantasmas que por ali jogam. A Salinha dos Cães guarda Purdey, o animal de estimação do artista. A Sala do Despacho é vigiada por um cego e na Antecâmara de ares orientais há um samurai de sentinela. À distância que vai de D. João IV aD. João VI corresponde uma última ceia e um Lamborghini. As Vanitas distribuem-se pelo Palácio. Encontrar-se-ão árvores metálicas, pessoas cristalizadas e um dinossauro.

O convívio anacrónico entre o melhor de cada uma das épocas far-nos-á redescobrir o legado da rainha e do artista. “Timeless” é a tradução deste espírito intemporal que os atravessa com os olhos postos na eternidade.

tale

mandala nr.1

It was quite unusual to stand at those heights, even more remarkable to defy gravity naked. 

She’s always been fond of street markets mostly on account of their round scent armouring loud colours. 

Between the eggplants and the chestnuts, his voice scattered the curtains of her absent mind. A grave tone, mild, without passion. She tried to figure his face out before looking behind. She thought he would be a man with arched back from sustaining his age, probably widowed even if his wife still presents dinner on a tightly delicious schedule, even if they still sit together in the same room or keep a shared bed. There was a reverberant sadness related to departures. Maybe he had bronze skin, the biggest heritage he kept from his navy days and perhaps he reads about voyages; otherwise why would he sound so distant or wavy? Looking back she blushed upon her assumptions. Decidly tall, certainly made of ebony, young enough to spend life together, he was carved out her wishes. Sounding old was due to ancient thoughts kept in her memoir waiting for someone like him. She would leave Portugal in a snap if that pirate found her golden heart. He took it. No resistance was shown. 

They built a realm far away where verdant landscape and soothing heat settled camp. Today, on top of a colossal rock giving to the Atlantic, alone with the ocean, they are jumping. It would be corny and accurate to compare this to a rebirth of two, silently delivered by love rather than passion. Why is it so exceptional to long for the deepest breath and dive?

the Concrete Observer #6

poem

pequena construção

(english version maybe soon)

esta luz ainda se aguenta
enquanto a chuva sedimenta
e queres tu uma avenida
quando cai a noite em vida

esta chuva ainda se aguenta
enquanto a noite sedimenta
e queres tu fazer-te à vida
armado em luz d’avenida

esta vida ainda se aguenta
enquanto avenida sedimenta
queres ousar a luz passiva
sob chuva que te priva 

 

esta noite ainda se aguenta
enquanto a luz sedimenta
larga avenida intransitiva
queres-m’esquiva ou conviva